Fotografo: RICARDO MORAES
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Torcedores do Flamengo festejam título da Libertadores em uma das favelas do Rio

No início da tarde deste sábado, a Estrada do Itararé, que corta o Complexo do Alemão, comunidade da Zona Norte do Rio, não aparentava nenhum sinal do grande momento que estava prestes a seguir. Apesar do calor, que costuma movimentar a comunidade, levando os moradores para fora de casa, havia pouca gente rua, apenas um ou outro vestia a camisa do Flamengo, e as bandeiras do time Rubro-Negro eram vistas somente ao longe, nas casas do morro.

A situação talvez enganasse quem olhava de fora, mas bastava seguir rua adentro, pelas vielas da comunidade, para descobrir que a festa na favela começou cedo e não tinha hora pra acabar, só dependia do time. A filas de espera por um mototáxi cresciam na mesma medida em que os trabalhadores largavam a labuta de sábado para concentrar na diversão - ou sofrimento - que seria o jogo. Até morador vascaíno estava ansioso pela partida, como o Alex Ribeiro, do Mototáxi Ponta a Ponta, que separou o dia para tomar uma cerveja e acompanhar a disputa pela Taça Libertadores da América.

- Se fosse a final da Copa do mundo sem o Brasil, a gente ia querer assistir pra ficar informado do jogo né? Não é o Vasco em campo, mas a partida é importante e o clima na favela é de festa, então reuni os amigos, a família e tomamos uma cerveja - conta.

O clima festeiro era tão contagiante, que mesmo esperando um pouco a mais por uma moto, os clientes relevaram o transtorno.

- Eu até entendo (os mototaxistas), também não ia querer estar trabalhando - perdoou, aos risos, a auxiliar administrativa Daiana Lima, que aguardava o trasporte que a levaria ao Largo da Vivi, na Alvorada, pra assistir o jogo com a filha e o namorado, os três vestiam a mesma camisa do Flamengo em tons de azul e bermuda branca. - Viemos todos combinados que é pra dar sorte.

A espera foi longa: 87 minutos de um jogo nervoso. Mas a virada do Flamengo chegou no momento certo e quem piscou perdeu, como o Sérgio Camargo, da Cidade de Deus, comunidade da Zona Oeste do Rio, tocando junto com uma charanga da torcida:

- Quando o Flamengo fez o primeiro gol eu parei de tocar e comecei a chorar, nem vi como foi o segundo gol - relata. - Toquei o jogo todo e depois fomos pra rua tocar mais, demos a volta na favela toda. Eu tô todo dolorido, mas pelo Flamengo vale tudo.

Na comunidade do Jacarezinho, o clima não foi diferente, inclusive com famílias divididas entre secar e torcer. Thamires Floriano e o marido, Airã Floriano, são assumidamente vascaínos, já Kaique, o filho do casal, descobriu ser apaixonado pelo Flamengo. Só que o garotinho tem apenas seis anos e bate o pé.

- A família inteira é vascaína e eu não sei da onde ele tirou tanto amor pelo Flamengo, mas em um momento como esse não tem rivalidade de time. Eu olhava em volta e a economia da favela tava girando com a venda de produtos do Flamengo.. Eu não tive noticia de tiro em nenhuma comunidade nesse sábado, as minhas redes sociais só mostravam meus amigos felizes. É pra comemorar sim, se não pelo Flamengo, que seja pela alegria da favela - disse Thamires.

Fazia tempo, aliás, que as favelas não tinham um momento de paz coletiva. Do Vidigal ao Complexo da Maré, o choro dos moradores das comunidades do Rio tinha o mesmo motivo: felicidade. É como o funk de Kevin o Chris diz: "seja no Lins ou no PPG, pode começar a descer". Foi assim terminou a noite nas favelas cariocas: baile e diversão. Já a festa pelo Flamengo, não tinha hora marcada pra acabar.

E seguiu no dia seguinte, quando, com muitos moradores de ressaca, o Jacarezinho acordou na expectativa pela festa do Flamengo. Alguns foram para o centro da cidade acompanhar, mas muitos assistiram pela TV, em casa ou nos bares, ou fazendo um tradicional churrasco de domingo, desta vez com mais motivo para comemorar. Antes mesmo do fim do jogo entre Palmeiras e Grêmio, muitos fogos e gritos de "campeão de novo" nas janelas. Quando o jogo acabou, a impressão era de gol do Flamengo, apesar de não ter jogo.

Depois de passar o fim de semana acompanhando a reação dos rubro-negros nas comunidades do Rio, a reportagem descansou. Foi até uma festa de aniversário, mas não teve "Parabéns para você" na hora do bolo. Trocaram a música e cantaram o hino do Flamengo, já que o aniversariante era rubro-negro. Ele e o time, definitivamente, merecem as felicitações.